23 dezembro 2017

É difícil dizer a última vez em que ela olhou com atenção um calendário, tinha certeza de que o período era longo, já que há tempos não existia qualquer expectativa por algum dia especifico. Seus dias eram como segundas-feiras intermináveis: tediosos. Ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, como quem não quer nada, Stella anda na ponta dos pés até o calendário colorido preso a parede roxa da cozinha, deslizando os dedos frios por todos os dias já corridos de dezembro, parando no fatídico dia vinte e quatro.
Stella era capaz de evitar muitas coisas, mas não pode evitar a chegada de dezembro, e, com ele, o natal.

Natal… Essa época estranha do ano em que a neve caia por todos os lados e parecia que ao invés de causar frio, apenas aquecia ainda mais o coração das pessoas, que numa euforia nada comum, corriam por todos os cantos da cidade dispostas a praticar a caridade e enfeitar qualquer espaço possível com pisca-piscas e guirlandas. Mas Stella não suportava o natal. Tentava evita-lo ao máximo se trancando em casa com a maior caneca que tivesse, cheia de chá para esquentar suas mãos sempre tão frias.

Um estrondo puxa Stella para longe de seus pensamentos. Deixando o calendário de lado, ela segue em direção ao quarto, descobrindo de onde vinha tanto barulho. A janela está aberta e o vento forte faz um barulho terrível ressoar por todo o cômodo, no entanto, quando ela fecha a porta atrás de si, em uma última rajada de vento a janela bate mais uma vez antes de encostar, quase fechada. A única coisa que resta fora do lugar no quarto é uma pequena folha em cima do tapete felpudo. Recuperando-se do susto, ela vai até a janela e certifica-se de que ela esteja bem fechada, então ajoelha-se no chão e pega a folha. Faz anos que Stella saiu do Brasil, mas, quando vira a folha e observa o que tem ali, ela se lembra nitidamente de como é uma bateria de escola de samba em plena avenida no carnaval, pois seu coração bate apressado e imponente como uma. A fotografia em suas mãos mostra a imagem de uma Stella com pouco mais de dez anos nos ombros de um homem sorridente que está ao lado de uma mulher que se parece muito com ela hoje em dia. Segurar aquele pedacinho de papel era como abrir um baú enterrado há muitos anos por Stella, um baú com memórias de um passado que ela não queria visitar, mas involuntariamente, como em flashs, as lembranças voltavam.

O calor sufocante das noites brasileiras, a ostentação dos enfeites de natal na avenida mais famosa da cidade, seus pais sorrindo, ela comprando anjinhos de cristal para pendurar na árvore, uma rua estreita, um estacionamento vazio, um cara surge gritando, seus pais gritam, a pequena Stella grita, uma corrente de ouro é jogada no chão, mais gritos, seus pais caem no chão de cimento queimado do local tingindo tudo de vermelho.

Stella joga a foto longe, como se fosse algo contaminado e encosta-se à parede procurando algum conforto, mas só encontra uma tempestade dentro de si mesma. Sentimentos distintos se atropelando, causando um aperto doloroso em sua garganta. Tentando fugir de tudo, ela calça as botas e pega o casaco, saindo apressada do apartamento, tropeçando pelos degraus gastos do prédio antigo até finalmente chegar à rua e ser atingida pelo frio cortante. Ela não para. Como se fugisse dos fantasmas de seu passado, Stella corre pelas ruas de New York evitando todos os tons de vermelho e dourado. Corre tanto, que quando se dá conta, está num vagão de metrô com meia dúzia de pessoas, e então decide sentar em um dos bancos próximos a janela e seguir para qualquer lugar que não fosse seu apartamento. As portas do vagão se fecham e o metrô segue até a próxima estação, algumas pessoas entram e um rapaz senta-se ao seu lado, abre um sketchbook e passa a observar o vagão com olhos de água.

O rapaz faz alguns rabiscos na folha em branco e Stella observa curiosa. Cinco minutos depois, ele suspira e admira o que tanto rabiscou. Os traços eram precisos e finos, e juntos, formavam o rostinho de uma criança sorridente. Parecendo aprovar sua arte, o rapaz rasga a folha do caderno, levanta e segue até o banco da frente, onde uma mulher de vestes simples segura uma menininha no colo, a mesma que ele desenhou. Ele entrega a folha e ela sorri iluminada. O rapaz volta a se sentar do lado de Stella, que rapidamente volta a encarar a janela.

– Eu gosto de fazer retratos. – Uma voz rouca, porém grossa, diz. Stella olha para o lado e o tal desenhista a encara. Ela sorri e acena com a cabeça, então ele volta a falar. – Principalmente no natal, não sou um cara nada rico, então minha boa ação é distribuir os retratos que faço e arrancar algum sorriso.

– Legal. – Stella responde, e sem mais delongas, volta-se para a janela. Espirito natalino não lhe interessava.

– A propósito, me chamo Nicolas.

– Stella.

A conversa inusitada acaba por ai. Nicolas volta para seus rabiscos e Stella para sua janela. Entre uma estação e outra, ele continua entregando alguns desenhos e arrancando seus preciosos sorrisos, e ela, ainda encostada na janela, resmunga algumas músicas. O trem da um tranco, Stella abre os olhos a tempo de ver as luzes apagarem e voltarem mais uma vez, seguidas por uma mensagem de voz, dizendo que o metrô pararia por tempo indeterminado devido à tempestade de neve. Enquanto respira fundo, Stella escuta alguns resmungos, mas a felicidade das pessoas parece inabalável. Um casal levanta um visco na própria cabeça e se beijam, algumas amigas gravam vídeos cantando músicas de natal e uma mãe divide o pacote de bolacha entre os filhos, dizendo que aquela seria a ceia da noite. Como eles conseguiam estar presos em um vagão sujo e ainda sorrir e se divertir?

– Por que está sozinha aqui? – O desenhista volta a falar. Stella olha para ele e descobre que seus olhos são verdes e misteriosos como as águas de um lago.

– Estou fugindo do meu passado. – Stella responde.

– Devia parar de correr do passado e prestar atenção no presente.

Stella e Nicolas conversam sobre tudo que não envolva o passado. Eles ficam atentos ao presente, observando todos no vagão. Em meio a algumas risadas contidas de Stella, Nicolas divide um muffin com ela, como se fosse uma ceia dos deuses, e após isso, ele volta a desenhar todos no vagão, e, relutante, ela vai e o ajuda a entregar os desenhos, sentindo-se iluminada com o sorriso que recebia de todos. Quando chegam em uma mulher vestida toda vestida de preto, a mesma diz que leria a mão de algum deles em troca de um desenho. Nicolas lhe entrega a folha de bom grado, junto da mão de Stella.

– Ah, eu posso ver! Dia agitado… Visitas do passado. O despertar para o presente. Mas e o futuro? Ah, eu posso ver! Vejo sim, opções. Basta um passo para você escolher. Ah, eu posso ver! O futuro solitário que lhe era reservado… Ele pode sumir, ah, pode sim. Surgindo sorrateiro, eu vejo… Outro futuro, verde como a esperança que ele carrega. Basta um passo para você escolher. – A mulher termina sua profecia e vira-se, sem nunca mostrar o rosto.

Stella volta para o banco com seu coração em modo escola de samba mais uma vez. Nicolas senta-se ao seu lado, com as mãos em seu ombro como se fossem conhecidos há anos. Depois de três horas, o trem apaga as luzes, acende novamente e, finalmente, começa a andar, indo para a última estação. Nicolas rasga sua ultima folha da noite e a coloca na perna de Stella, sussurrando feliz natal antes de o vagão abrir as portas e ele sair. A menina olha a folha em suas pernas e encontra um retrato de si mesma, feito pelas mãos enormes de Nicolas. Ele a desenhou quando ainda olhava para a janela, com os olhos perdidos. No início daquela noite ela estava perdida mesmo, tentando fugir de seu passado, cega para qualquer outra coisa, então veio Nicolas que lhe mostrou o agora e toda a inocência e bondade que rodeavam o natal. Mostrou-lhe tudo que ela ignorou desde o natal em que seus pais morreram, e que ela acreditava ter perdido. E então a mulher misteriosa e sua profecia cheia de esperança… E verde, como os olhos dele.
Basta um passo para você escolher.

O apito avisando que as portas irão se fechar soa, e Stella corre apressada para fora do vagão. Seguindo as placas de saída, ela encontra Nicolas sentado no chão, próximo às catracas. Ela corre até ele, esbaforida. Ele olha como se ela fosse uma miragem.

– Por que estava sozinho no vagão? Em plena véspera de natal? – Ela pergunta.

– Eu estava procurando pela minha estrela de natal.

E isso é tudo que Stella precisa ouvir antes de se atirar nos braços de Nicolas, que lhe deu o melhor presente de natal de todos: um futuro.

É difícil dizer a última vez em que ela olhou com atenção um calendário, tinha certeza de que o período era longo, já que há tempos não existia qualquer expectativa por algum dia especifico. Seus dias eram como segundas-feiras intermináveis: tediosos. Ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, como quem não quer nada, Stella […]

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Apenas uma escorpiana de 21 anos tentando se formar em letras, dividindo o tempo entre ir para as festinhas, ler todos os livros e assistir todas as séries possíveis e, entre tudo isso, numa mistura doida, escrever historias que já ouviu, viveu e criou. Para me conhecer melhor me segue nas redes sociais @nannasl



22 dezembro 2017


Mais um dia de calor, na imensa São Paulo. A cidade estava um turbilhão mais do que o de costume. Nessa época do ano tudo se torna 100 vezes mais agitado. As pessoas vão para lá e para cá, se movimentando freneticamente. A euforia é evidente, mas apesar de tudo estar completamente parado. Não ter lugar para estacionar o carro, o metrô estar lotado, as lojas cheias, mas a energia é distinta. A agitação é diferente. A vivacidade de São Paulo é especial, nessa época do ano. A cidade estava com aquele ar de fim de ano, aquele ar que só existe no natal.

No meio dessa agitação corria Ana, cheia de sacolas do mercado, indo para casa. Só tinha ficado uma hora fora, mas parecia que foram cinco, estava suada. O calor não dava trégua. Teve sorte que o mercado não estava completamente lotado e que morava somente uma quadra de distância do supermercado. Ela costumava amar essa época de final de ano, tudo era mais bonito, cheio de luzinhas coloridas, que deixam as casas tão mais aconchegantes, porém esse ano, estava se sentido atônica, sem ânimo. A magia de natal, aparentemente, tinha sumido de sua alma e isso a deixava um pouco triste.

Enquanto andava de volta para seu pequeno apartamento, observava uma pequena criança de mãos dadas com sua mãe. Essas pequenas demonstrações de afeto em público, sempre mexia com ela. Ana queria sentir de novo. Desejava ver a família unida mais uma vez, todos em harmonia sorridentes, os presentes podiam ser descartados, sonhava em reuni-los outra vez, para poder sentir o conforto do lar e dos rostos familiares. Sentia falta dos sorrisos, das risadas escandalosas, das crianças correndo, da fofoca de família, do pudim de doce – de – leite de sua tia favorita, dos abraços carinhosos e do aroma de sua avó. Tudo era uma lembrança saudosa, gostaria de poder voltar e abraçar aquelas pessoas.

Ana olha através da janela de vidro, de sua cozinha, sente o vento entrar e dar sua graça. Como era bom sentir o vento em seu cabelo úmido, sendo que o vento a pegou e a levou de volta para sua memória. Em sua lembrança de criança, tudo era encantador. Lembra que os adultos sempre se sentavam na mesa e ficavam horas conversando e as crianças no chão brincando com seus novos presentes.

Uma vez, enquanto brincava no chão, parou hipnotizada e olhou para sua mãe e para todas aquelas mulheres, em volta da mesa. Sentiu-se protegida e amada de todas as formas possíveis. Encarou de novo sua mãe, e a olhou como se fosse a primeira vez. O seu sorriso iluminava seu pequeno corpo. Levantou e abraçou. E sua mãe a recebeu em seus braços, com seu mais puro amor, sendo que foi ali que Ana entendeu, que não eram os presentes e as comidas deliciosas, que formava aquele ar de natal e sim o amor, a cumplicidade e a união de sua família.
Ana já não era mais criança e toda aquela magia de natal sumira. A vida a distanciara, da antiga Ana. Nada daquilo fazia mais sentido, a família não existia mais e nem a segurança. Tudo tinha acabado. Era somente uma lembrança. Mas algo dentro de Ana, não a deixava desistir. Ela passava uma imagem dura, mas na verdade só tinha medo de ser magoada e ela não suportaria isso de novo. Porém ainda existia a chama da esperança dentro dela, que pulava dentro dela, sendo que nesta noite estava agonizante.

Com o fim da rajada de vento, Ana volta sua cozinha, com os olhos marejados. Abraça seu corpo, mas ainda consegue sentir o cheiro daquela lembrança, sendo quase palpável. Olha ao redor e se vê sozinha, em plena véspera de natal. Olha para o celular, com as mãos tremulas, faz a ligação. Sua mente receosa, espera que ninguém atendesse, mas quando ouve a respiração do outro lado da linha, tudo se acalma e finalmente tem a coragem de falar:
– Oi mãe.

Mais um dia de calor, na imensa São Paulo. A cidade estava um turbilhão mais do que o de costume. Nessa época do ano tudo se torna 100 vezes mais agitado. As pessoas vão para lá e para cá, se movimentando freneticamente. A euforia é evidente, mas apesar de tudo estar completamente parado. Não ter […]

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Escorpiana, 22 anos, estudante de letras, criadora do Garota Turquesa. Deixou seus medos para trás e foi realizar seu sonho. Para me conhecer melhor me siga nas redes sociais @Gabimodolo26





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